Laboratórios para as melhores cabeças

Suas paixões são mundos desconhecidos nas plantas, no espaço virtual, no mar, no cosmos. Como pesquisadores de ponta transpõem os limites do conhecimento na Alemanha.

dpa/Swen Pförtner - Stefan Hell

Durante mais de 120 anos, o limite de dispersão dos microscópios ópticos parecia ser tão rígido como aço. Em 1873, o físico Ernst Abbe postulara que não seria possível visualizar detalhadamente estruturas semelhantes que tivessem menos de 200 nanômetros. Isto significava: nenhuma chance de se observar células nervosas. Quem tentasse quebrar esse limite poderia ser considerado tolo ou megalomaníaco. “Tinha a certeza de que ainda se poderia fazer algo mais“, diz hoje o Dr. Stefan Hell. Falando mais precisamente, ele usou um truque para quebrar aquele limite, fazendo com que as moléculas florescentes das células luzissem uma após a outra e não ao mesmo tempo. Foi uma revolução que lhe trouxe o Prêmio Nobel de Química em 2014. Mais fama é impossível. Mas Hell não se esqueceu de que também deve isto por ter ultrapassado fronteiras. Veio, quando criança, da Romênia para a Alemanha, trabalhando então na Finlândia, no projeto do seu microscópio STED. Mas depois, ele encontrou sua pátria de pesquisa na Alemanha, no Instituto Max Planck de Química Biofísica, em Göttingen, onde é diretor desde 2002 e onde teve a chance de construir seu microscópio. Rejeitou até mesmo um convite de Harvard. Em vez disso, ele intensificou ainda mais a sua cooperação com o Centro Alemão de Pesquisa do Câncer, em Heidelberg.

O MICROSCÓPIO, com o qual o livre-docente Dr. Henry Chapman mede objetos biológicos, como, por exemplo, proteínas, tem uma enorme extensão de 315 metros, é chamado de laser de elétrons livres e pertence ao acelerador de partículas DESY, em Hamburgo. Aqui existem as melhores condições de trabalho para o cientista inglês, cofundador e diretor do Center for Free-Electron Laser Science. As biomoléculas são compostos orgânicos sensíveis que podem ser imediatamente destruídos pela emissão de raios laser de alta energia. Por isso, Chapman desenvolveu um procedimento de teste que exige uma compreensão exata da interação entre o raio laser e a proteína. Por estes trabalhos pioneiros, Chapman recebeu em 2015 a importante menção alemã de pesquisa, o Prêmio Leibniz. O trabalho sobre os lasers de elétrons livres também diz respeito a outros ramos da ciência.

ULTRAPASSAR LIMITES científicos é também o dia a dia do livre-docente Dr. Johann-Dietrich Wörner, experiente pesquisador e presidente executivo da European Space Agency (ESA). A partir de meados de 2015, ele será o “mais alto astronauta” da Europa. Profissionalmente, Wörner é engenheiro civil. Após ter sido livre-­docente de Estática e reitor da universidade TU de Darmstadt, ele assumiu, a partir de 2007, o posto de diretor do Centro Aeroespacial Alemão DLR. Sob o teto dessa instituição Helmholtz, mais de 8000 cientistas pesquisam atualmente nos ramos da aviação, aeronáutica, energia, trânsito e segurança. “Na Alemanha existe uma diversidade de temas e de instituições de pesquisa sem igual”, é a convicção de Wörner. A sua nova tarefa como chefe da ESA em Paris é para ele uma motivação para promover o espírito europeu transfronteiriço e se engajar no reforço da navegação espacial europeia. E realiza assim um sonho de infância, pois já desde criança fora encantado pelo espaço sideral. Ele entraria, sem pensar um instante, numa aeronave com destino a Marte.

NÃO É SÓ NO COSMOS, que as espécies sempre estão procurando um novo habitat, mas também na Terra. Muito eficiente neste assunto é o neogobius melanostomus, de cerca de 20 centímetros. Este peixe bem discreto é originário do Mar Negro, foi encontrado também nos lagos da América do Norte, onde foi pesquisado durante alguns anos por Elizabeta Briski, nascida na Croácia. “A questão que quero pesquisar agora une a Europa com a Ásia e a América. Por isso decidi voltar para a Europa”, diz ela. Tendo recebido o Prêmio Sofja Kovalevskaja para jovens pesquisadores, Birski está construindo um grupo de trabalho no Centro Helmholtz de Oceanografia GEOMAR, em Kiel. Devido ao fato de que as migrações de peixes na direção contrária – América do Norte-Ásia – tenham sido pouco observadas até agora, ela começou a pesquisar se as espécies do Mar Cáspio e do Mar Negro estão geneticamente melhor preparadas para conquistar outros habitats.

PERITA EM HABITATS incomuns é também a livre-docente Dra. Nicole Dubilier, bióloga marinha. E ela chega a esses habitats com os navios alemães de pesquisa Sonne, Maria S. Merian ou Meteor. No fundo do mar ou em sedimentos costeiros ricos em sulfureto existem condições hostis à vida, como no cosmos. Desde 2001, a pesquisadora norte-americana é diretora do Instituto Max Planck de Microbiologia, em Bremen, onde pesquisa como animais invertebrados, por exemplo, vermes, conseguem sobreviver lá, apesar da falta de recursos energéticos e alimentícios. “Eu sempre quis trabalhar neste instituto, porque ele oferece as melhores condições de trabalho”, diz Dubilier. Ela conseguiu chegar a novos conhecimentos fascinantes sobre a vida simbiótica. Organismos hospedeiros, como vermes, alimentam-se indiretamente, pois vivem em estreita cooperação com bactérias que transformam as substâncias desse ambiente hostil em alimento. É um “trabalho em equipe” muito apreciado por “Nicole do Verme”, como está na placa à porta do seu escritório.

DE CERTA MANEIRA, a falta de recursos é também a motivação de Jürgen Leohold, engenheiro eletrônico e diretor de pesquisa empresarial da Volkswagen. A sua agenda contém temas como a mobilidade elétrica, a construção leve e a condução automática. “A pesquisa é muito necessária. Temos que trabalhar em muitos setores”, diz ele. Sendo diretor de pesquisa, ele coordena 9300 funcionários altamente qualificados. A VW é líder mundial de investimentos na pesquisa e no desenvolvimento, mantendo em Wolfsburg um dos maiores centros de desenvolvimento da indústria automobilística. Ela coopera com universidades e institutos da Sociedade Fraunhofer.

STEPHANIE MITTERMAIER, perita em técnica de alimentação, é diretora da área de negócios no Instituto Fraunhofer de Tecnologia de Processos e Embalagem, perto de Munique. Ela consegue unir a ciência à economia, com um tema que não poderia ser mais extravagante, pois faz do tremoço as bases da alimentação vegana. “Ao contrário da soja, esta planta, que é também muito rica em proteína, é nativa na Alemanha, dispensa cuidados e não é transgênica”, diz a pesquisadora. Mas o tremoço tem gosto de grama e fava. Mittermaier e seu colega Peter Eisner desenvolveram um processo para extrair a substância causadora do sabor indesejado. As proteínas sem sabor são transformadas em leite, queijo, bolo ou salsicha. Em 2013, começou a funcionar a primeira instalação de produção do “spin off” Pro­lupin. Os sorvetes de tremoço já têm grande predileção nos mercados de produtos orgânicos. Para Mittermaier, é precisamente aqui que está a motivação para pesquisar na Alemanha: “Posso trabalhar aqui com grande liberdade, a alto nível e com equipamentos muito bons, desenvolvendo produtos inovadores que estão disponíveis em supermercados”. Ela e seus colegas receberam em 2014 o Prêmio Alemão do Futuro, o que também ressalta que o tremoço é uma contribuição para a preservação de recursos de alimentação para a crescente população mundial.

A POPULAÇÃO MUNDIAL é vista de outra perspectiva pelo livre-docente Dr. James Vaupel, demógrafo e perito em estatísticas dos EUA. Ele agitou muito o cenário da pesquisa demográfica, pois observou que as pessoas morrem cada vez mais velhas porque o processo de envelhecimento começa mais tarde. Uma tese que contradiz a suposição de uma idade máxima. Vaupel é, desde 1996, cofundador e diretor do Instituto Max Planck de Demografia em Rostock, uma instituição de categoria mundial. O cientista está convicto de que é somente a biologia que nos leva a entender o que determina a longevidade. Sobre seus planos, ele que já está agora com quase 70 anos de idade, diz que quer pesquisar, ensinar e aprender até os 85 anos.

POR QUE PERDEMOS a capacidade de aprender quando nos tornamos adultos? Qual a relação entre ver, ouvir e sentir? De que modo o cérebro pode se adaptar à cegueira ou à surdez? Essa capacidade de adaptação depende da idade que se tem? Estas são questões que dão um importante impulso à pesquisa de formação e reabilitação, que é a motivação de Brigitte Röder, livre-docente de Psicologia Biológica e Neuropsicologia na Universidade de Hamburgo. Ela está segura de ter condições excepcionais de pesquisa nessa universidade, da qual também faz parte o Center of NeuroScience de Hamburgo. “Nossa pesquisa apenas funciona nessa relação interdisciplinar de psicologia, medicina e informática”, diz Röder. Depois de várias estadias nos EUA, ela decidiu finalmente trabalhar na Alemanha, graças, entre outros motivos, à excepcional promoção da pesquisa aqui existente e da ótima formação que recebem os futuros cientistas.

ONUR GÜNTÜRKÜN, livre-docente de Psicologia Biológica, também acha fascinante o cérebro e os pombos. “Estes são meus animais caseiros científicos”, diz ele, que, nos seus laboratórios da universidade de Bochum, estuda esses pássaros que apresentam a capacidades excepcionais de aprendizado e de raciocínio. Ele descobriu que o cérebro de pombos e outros animais são assimétricos, como os cérebros humanos, nos quais a orientação espacial está localizada mais no hemisfério cerebral direito e a língua mais no esquerdo. Assim, eles são ideais para a pesquisa, pois coordenam os dois hemisférios cerebrais. “A capacidade de pensar surge no nosso cérebro através da atividade de bilhões de células nervosas. A questão central da minha vida é como isto produz nosso raciocínio”, diz Güntürkün. Quando ainda era aluno na Turquia, ele adorava a psicologia. Depois, estudou na Alemanha, pesquisou na França e nos EUA, antes de se tornar catedrático em Bochum. Desde então, ele transmite esse entusiasmo a seus estudantes.

CÉREBROS E POMBOS poderiam também ser os protagonistas dos mundos criados por Leif Kobbelt. Detentor do Prêmio Leibniz e livre-docente de Computação Gráfica na universidade RWTH de Aachen, ele desenvolve métodos para gerar objetos complexos tridimensionais. O perito em informática é um dos excepcionais representantes mundiais na elaboração geométrica e um dos pioneiros de um novo princípio, o “point based graphics”, que é mais um passo para que se possa simular máquinas complexas com o máximo de fidelidade, planejar perfeitamente operações cirúrgicas ou configurar fidedignamente mundos imaginários para jogos de computador. Neste particular, Kobbelt é um mestre em ultrapassar limites, ou seja, os limites entre o mundo real e o mundo virtual.

www.humboldt-foundation.de/web/dossier-kovalevskaja-preis.html

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