Ministra do Exterior Annalena Baerbock discursa perante a Assembleia Geral da ONU

A guerra da Rússia contra a Ucrânia - o texto completo do discurso da ministra das Relações Externas

Baerbock at the UN General Assembly on Ukraine
Ministra do Exterior Baerbock discursa perante a Assembleia Geral da ONU dpa

Intervenção da Ministra Federal das Relações Externas, Annalena Baerbock, na 11.ª Reunião de Emergência da Assembleia Geral da ONU sobre a Ucrânia

Nova Iorque, 1 de março de 2022

Senhor Presidente,

Senhor Secretário-Geral,

Excelências,

Senhoras e Senhores,

Há poucos dias, numa estação de metro de Kiev, nasceu uma menina. Ouvi dizer que lhe deram o nome de Mia. Tal como milhões de outras pessoas na Ucrânia, a família da bebé vira-se obrigada a procurar abrigo de bombas, mísseis, tanques e granadas. Vivem com medo, vivem em sofrimento. São forçadas a separar-se dos seus entes queridos. Porque a Rússia iniciou uma guerra de agressão contra a Ucrânia.

Senhoras e Senhoras,

Acredito que esta votação é sobre a Mia. É sobre o futuro das nossas crianças. É sobre um futuro que possa ser escolhido por nós. Estou aqui hoje, perante Vossas Excelências, como Ministra do Exterior do meu país, mas também enquanto alemã que teve o incrível privilégio de ter crescido numa Europa em paz e em segurança. Depois do fim da Segunda Guerra Mundial, depois de uma guerra hedionda iniciada pela Alemanha nazi, há 76 anos foi criada a Organização das Nações Unidas para preservar a paz e a segurança. Foi criada, conforme refere a Carta, para “preservar as gerações vindouras do flagelo da guerra.” Foi a pensar na minha geração, mas também na geração da Mia.

Os princípios das Nações Unidas estabelecem o quadro para a nossa paz: para uma ordem baseada em regras comuns, no direito internacional, na cooperação e na resolução pacífica de conflitos. A Rússia atacou esta ordem de forma brutal. E é por isso que, nesta guerra, não se trata apenas da Ucrânia, não apenas da Europa, mas de todos nós.

A guerra da Rússia marca uma nova era. Estamos numa encruzilhada. As certezas de ontem hoje já não são válidas. Hoje vemo-nos confrontados com uma nova realidade que ninguém de nós escolheu. É uma realidade que o presidente Putin nos impôs.

A guerra da Rússia é uma guerra de agressão. E na sua base estão vis mentiras que o Ministro do Exterior Lavrov voltou a repetir hoje no Conselho de Direitos Humanos da ONU. Eles dizem que estão a agir em autodefesa. Mas o mundo inteiro pôde ver como, ao longo de meses, eles prepararam este ataque concentrando as suas tropas. Dizem que a Rússia está a proteger populações russófonas de agressões. Mas hoje, todo o mundo viu como estão a bombardear as casas de ucranianas e ucranianos russófonos em Kharkiv. Dizem que a Rússia está a enviar forças de paz. Mas os seus tanques não trazem água, os tanques não trazem alimentos para bebés, os tanques não trazem paz. Os seus tanques trazem morte e destruição. E na verdade, abusam do seu poder enquanto membro permanente do Conselho de Segurança. Senhor Lavrov, pode enganar-se a si próprio, mas a nós não engana. Não enganará os nossos povos – e também não irá enganar o seu próprio povo.

Senhoras e Senhores,

A guerra da Rússia é sinal de uma nova realidade. Cada uma e cada um de nós é agora chamado a tomar uma decisão firme e responsável e a tomar partido. O meu país vai aumentar a sua ajuda à Ucrânia com medicamentos, alimentos, ajuda humanitária e abrigos para refugiados. Tal como muitos dos que hoje aqui estão presentes. Saúdo muito o apoio demonstrado.

Ouvimos boatos – também nesta sala - de que pessoas de origem africana que estão a fugir da Ucrânia estariam a ser alvo de discriminações nas fronteiras da UE. Esta manhã estive na Polónia. E os meus homólogos polaco e francês e eu deixámos bem claro que a cada refugiado deve ser dado proteção, independentemente da sua nacionalidade, origem ou cor.

Decidimos apoiar a Ucrânia militarmente para que esteja em condições de defender-se contra o agressor, de acordo com o artigo 51.º da nossa Carta. A Alemanha tem plena consciência da sua responsabilidade histórica. Por isso, estamos e estaremos sempre comprometidos com a diplomacia e buscaremos sempre soluções pacíficas. Mas quando a nossa ordem pacífica está sob ataque, temos de fazer face a esta nova realidade. Temos de agir de forma responsável. E, por isso, temos de nos unir hoje em defesa da paz!

Nos meus inúmeros telefonemas mantidos durante os últimos dias, ouvi alguns dos meus colegas a dizer: “Agora querem que expressemos a nossa solidariedade com a Europa. Mas onde estiveram, quando fomos nós que precisávamos da vossa solidariedade?” Quero dizê-lo com toda a clareza e sinceridade: Eu compreendo-vos. Nós compreendemo-vos. E acredito sinceramente que devemos estar sempre disponíveis para questionar de forma crítica as nossas próprias ações, as nossas atividades passadas no mundo. Estou disponível para fazê-lo.

Mas o que importa agora é o presente. São as famílias que procuram abrigo em estações de metro porque as suas casas estão a ser bombardeados. Trata-se de uma questão de vida e de morte para a população ucraniana. A segurança da Europa está em risco. Praticamente todos os países aqui representados têm um vizinho maior e mais poderoso. Trata-se de todos nós, Senhoras e Senhores.

E por esta razão exorto todos a defenderem a paz em conjunto e a votarem favoravelmente a Resolução apresentada. O bispo Desmond Tutu disse em tempos: “Quem, numa situação de injustiça, mantiver a neutralidade, coloca-se do lado do opressor.” Hoje todos nós somos chamados a escolher. Entre a paz e a agressão. Entre a justiça e a vontade do mais forte. Entre agir e virar a cara.

Quando, depois da votação, regressarmos às nossas casas, voltaremos a sentar-nos à mesa com os nossos filhos, os nossos parceiros, os nossos amigos, as nossas famílias. Será então que cada um de nós terá de olhá-los nos olhos e dizer-lhes qual a decisão que hoje tomámos.

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