O renascimento dos bairros históricos

Demolir ou reconstruir? Durante muito tempo, as cidades alemãs preferiram a bola de demolição. Mas isso mudou. 

Frankfurt: o bairro histórico ressurgiu em 2018
Frankfurt: o bairro histórico ressurgiu em 2018 dpa

Muito concreto e cantos claros: a aparência de muitos centros urbanos reflete a estratégia de muitos anos no tratamento de prédios históricos destruídos ou em ruínas na Alemanha. Nem sempre o desenvolvimento urbano e a preservação de monumentos andaram de mãos dadas. Porque o momento agora é propício para uma reconsideração do patrimônio cultural. 

Tão moderno quanto possível 

Há na Alemanha, desde o final da guerra, grandes reservas contra o “popular”. Envenenado pela ideologia nazista, esse conceito transformou-se um inimigo do esclarecimento. Isso se manifestou de maneira especialmente drástica na arquitetura. O modernismo alemão do pós-guerra, que marcou a reconstrução do país destruído pela guerra, foi voltado não apenas para o senso técnico-prático, mas foi ao mesmo tempo uma luta cultural de defesa contra a imagem urbana do velho Estado alemão, que trouxera sofrimento inacreditável ao mundo. 

Modernismo do pós-guerra em Frankfurt: a Technische Rathaus
Modernismo do pós-guerra em Frankfurt: a Technische Rathaus dpa

A reconstrução de bairros destruídos na guerra ou de prédios simbólicos continuou sendo um tabu, mesmo depois que os países vizinhos, vítimas da guerra, restauraram sua cultura arquitetônica perdida e reconstruíram os velhos centros urbanos na planta histórica e, tanto quanto possível, no estilo antigo. Na Alemanha, os urbanistas aproveitaram a tábula rasa dos bombardeios, para construir tão moderno quanto possível. 

Novo anseio pela identidade local 

Esse panorama ajuda a entender, porque teve de passar mais de meio século, até que uma nova geração de urbanistas ousasse construir nos velhos estilos. Entre outras coisas, a marcha vitoriosa da linguagem reduzida das formas arquitetônicas modernas e o seu triste resultado nas cidades, que se assemelham cada vez mais em todo o mundo, foi o que fortaleceu o anseio pela diversidade e pela identidade local. 

O palácio berlinense Stadtschloss e o Fórum Humboldt 

A nova construção do palácio berlinense Stadtschloss traz de volta a velha fachada e um interior novo para a galeria de exposições do Fórum Humboldt – mas na Alemanha isso continua sendo discutido como uma quebra de tabu. Em outros lugares, porém, os projetos de reconstrução obtêm grande aprovação. Muitos planejadores reconhecem as qualidades do urbanismo histórico com construções de pequeno porte, movimentadas áreas térreas e configuração variada das casas como o único remédio contra as monótonas construções novas de grandes estruturas, movidas pelos lucros. 

Berlim: palácio Stadtschloss e Fórum Humboldt
Berlim: palácio Stadtschloss e Fórum Humboldt dpa

Frankfurt, Lübeck e Dresden fazem ressurgir o velho 

Dentro desse espírito, Frankfurt do Meno acaba de fazer ressurgir o seu bairro histórico. Lübeck está reconstruindo seu bairro histórico da época dos Fundadores, no centro da cidade, com a estrutura da cidade medieval. E Dresden fez renascer das ruínas a igreja Frauenkirche. O princípio básico: as construções-chave são reproduzidas da forma mais original possível. As lacunas de entremeio são preenchidas com interpretações modernas de velhos estilos. 

Dresden: a igreja Frauenkirche reconstruída
Dresden: a igreja Frauenkirche reconstruída dpa

Livre da obsessão retangular 

A obsessão retangular, ainda profundamente enraizada na terra natal da Bauhaus, retorna ao estilo lúdico nesses projetos de reconstrução. De repente, alguns endereços possuem novamente uma personalidade, são incorporados na estrutura urbana de maneira inconfundível. Elementos criticados no modernismo, como janelas salientes, telhados de duas águas, treliças, arcadas ou contraventos são redescobertos como elementos estimulantes na imagem urbana. 

Reconstrução manual de ornamentos históricos
Reconstrução manual de ornamentos históricos dpa

Durante cem anos, a teoria do modernismo afirmou com êxito, ser a arquitetura que cria igualdade de chances para todas as pessoas. Porém, o anseio de uma expressão de terra natal e de ligação pessoal continuou existindo. Os bairros históricos ressurgidos em Frankfurt ou em Dresden atraem pessoas de todo o mundo que, com certeza, jamais poriam os pés numa área de construções modernas, que têm a mesma aparência entediante que na suas cidades de origem. Elas não são visitantes de uma “Disneylândia”, como os arquitetos modernos difamam esses bairros. A reconsideração sobre as qualidades da cidade pré-moderna é muito mais uma prova da competência dos cidadãos e dos visitantes, que reconhecem o que compõe uma cidade viva e diversificada. 

Sharing Heritage – Ano Europeu do Patrimônio Cultural 2018

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