Discutir sobre os valores da Europa

Porque é necessário que os Europeus façam autocrítica sobre seus valores e o futuro da UE.

Mohamed Amjahid, curador de “Europa21” na Feira do Livro de Leipzig.
Mohamed Amjahid, curador de “Europa21” na Feira do Livro de Leipzig. Götz Schleser

Alemanha. Justiça, democracia e direitos humanos são valores europeus. Mas qual é a viabilidade desses valores na realidade? A Feira do Livro de Leipzig e a Fundação Robert Bosch convidaram personalidades internacionais da sociedade civil, da cultura, da ciência e da mídia, para discutirem sobre a Europa. Três perguntas a Mohamed Amjahid, curador do tema central da feira „Europa21“:

Senhor Amjahid, por que é necessário que façamos autocrítica sobre a Europa e “os valores europeus”?
Se os “valores europeus” são válidos exclusivamente para um determinado grupo, alguma coisa deve estar errada. Tornar visível esse defeito é importante para mim. Em um segundo passo, pode-se perguntar: O que são esses valores? E há um consenso sobre a sua validez? É bom discutir sobre tais questões consigo mesmo e com outros, esperando que se torne claro que posição tomamos, quais as coisas que correm mal e quais soluções podem ser encontradas para problemas iminentes, como a guerra e a paz ou a distribuição da riqueza. Discuto sobre isso todos os dias como autor e jornalista. Com base em “Europa 21”, gostaria de continuar essa discussão, levando-a ao âmago da Feira do Livro de Leipzig.  

Se os “valores europeus” são válidos exclusivamente para um determinado grupo, alguma coisa deve estar errada.

Mohamed Amjahid, curador de “Europa 21” na Feira do Livro de Leipzig

A unidade interna da UE está sendo ameaçada pelo crescente nacionalismo e o desiquilíbrio entre Norte e Sul, Leste e Oeste. Como se poderia consolidar o laço de união entre os seus Estados-membros?
Creio firmemente na discussão construtiva, quando a fazemos bem calmos, com boa conduta e muito respeito. É importante que as pessoas na Europa possam também se entender na linha vermelha. A dignidade humana e a igualdade de chances sempre têm de ser preservadas. Para mim é um enigma, como, por um lado, alguns Estados-membros da União Europeia demonstrem uma tal euforia pela Europa (paz, mobilidade, mercado interno...) e, ao mesmo tempo, exista uma espécie de ceticismo europeu em forma de nacionalismo.

Às vezes, eu penso: o nacionalismo é tão estúpido! Mas quero também entender, porque um europeu ou uma europeia possa dar seu voto a um movimento como “Cinco Estrelas” na Itália, ao partido “Alternativa pela Alemanha” na Alemanha, ao “Fidesz” na Hungria ou ao Brexit. 

E então? Como os impulsos do evento “Europa21” poderão se tornar parte do discurso social, transformando a Europa?
Não somente os autores são multiplicadores. Espero que o público em Leipzig ou meus leitores transportem essas questões, ideias e impulsos às escolas, à mídia velha e nova e aos ambientes privados. Não posso transformar a Europa sendo jornalista, autor ou curador, mas posso fazer uma pequena contribuição para que se entre em diálogo. Mas essa contribuição tem de ser aceita. Sendo produtor de mídia e agente cultural também dependo da cooperação.  

Mohamed Amjahid é redator do semanal “Die Zeit” e repórter, correspondente na Europa, África do Norte e Oriente Próximo. Ele é autor do livro “Unter Weissen. Was es heisst, privilegiert zu sein” (Entre brancos. O que significa ser privilegiado).

Entrevista: Tanja Zech

Feira do Livro de Leipzig, de 15 a 18/03/2018

“Europa21”, programa central da feira do livro

Série de entrevistas Falar sobre a Europa

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