Viva a província!

Não são apenas Berlim ou Colônia que merecem ser visitadas, pois quem quiser descobrir a verdadeira Alemanha tem que viajar para a província.

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Já vou dizer desde o começo: cresci numa cidade pequena. Num lugar, onde minha mãe já sabia que eu tinha começado a fumar, antes mesmo de eu ter apagado o cigarro no fim da rua. Naqueles tempos eu pensava: a província é definitivamente uma desvantagem. Não só por estar de castigo e não poder sair de casa, como consequência der ter tentado provar a nicotina. Mas também porque sempre se soube que bem longe da cidade grande, a gente vivia num outro universo, a muitas eras de distância das certas e inatingíveis vantagens das metrópoles, da sua diversidade cultural, da sua criatividade, do seu privilégio, da sua vida a alta velocidade, da sua vitalidade.  Enquanto se supunha, por um lado, que em Berlim, Hamburgo, Munique, Frankfurt e Colônia sempre reinava uma fantástica atmosfera, se constatava, por outro lado, que na província não se estava por fora só geograficamente, mas também mentalmente.

Lá, onde nada acontece, onde um tapume no jardim é um enorme evento arquitetônico, onde o ensaio semanal do coro já é uma prova sólida de uma vida noturna libertina e onde há apenas um motivo para se deixar a televisão só um pouquinho desligada no sábado à noite... não, não por causa da nova encenação de um jovem e fantástico diretor de teatro, mas sim por causa da queda da eletricidade ou, no melhor dos casos, por causa da apresentação de Howard Carpendale no Stadthalle local. Em resumo: Durante muito tempo se pensou que a província tinha que ser o epicentro da bitolação, uma Alemanha que não suporta como ela própria é, com “cappuccino” com nata batida e salada com molho de iogurte. E é obvio que não se encontra em nenhum lugar um razoável “Aperol Spritz” ou um “Hugo” – as insígnias do cidadão cosmopolita, consciente da moda.

 Assim é o fuxico espalhado por pessoas, cujo conhecimento sobre as pequenas cidades e aldeias não passa de clichês. Na verdade, a província é outra coisa. Ela é o centro e o principal protagonista deste país, ou seja, da Alemanha propriamente dita, já que dois terços da sua população vivem no interior, em povoados como  Ohrdorf ou Waldernbach e em pequenas cidades, como Rennerod, Oberkümmering ou em cidades médias, como  Kassel, Bielefeld, Cottbus ou Heilbronn. E elas não vivem na diáspora intelectual e cultural. Muito pelo contrário: a maioria dos mais de 80 elencos fixos de ópera existentes na Alemanha – quase tantos como no resto do mundo –, não está só em Munique ou Berlim. Muitas vezes são precisamente os pequenos teatros que têm coragem de tentar coisas experimentais, sem perder espectadores. É exatamente a proveniência dos grandes gênios alemães que demonstra como os pequenos inspiram os grandes, como Mörike, de Cleversulzbach, Hölderlin, de Lauffen am Neckar, Thomas Mann, de Lübeck, e Oskar Maria Graf, de Berg am Starnberger See.

Aliás, deste personagem histórico da Baviera provem outro conselho da periferia: “O mundo tem que se tornar provinciano para se tornar humano”.  Isto dado que a província tem uma face inconfundível. Enquanto as metrópoles trabalham duramente na sua uniformidade – para se tornar uma só e grande zona de pedestres, na qual não se sabe mais se a gente se encontra em Frankfurt, Colônia ou Stuttgart –, a província continua se mantendo obstinada, conservando seu marcante perfil e suas originalidades.  Ela é, por assim dizer, o forte da Alemanha, sua impressão digital  cultural e social. Para os que quiserem se aproximar do país seria melhor que o fizessem em Ohrdorf, Waldernbach, Münster ou Augsburg, pois a província da Alemanha já é, há muito tempo, tudo menos uma desvantagem. E se deveria viajar para lá, pelo menos uma vez, e ter lá cada vez mais residências fixas, exceto, é claro, se a gente for menor de idade e quiser fumar escondido. ▪

Constanze Kleis cresceu em cidade pequena, é jornalista, ­colunista e escritora de sucesso. Ela vive e trabalha em Frankfurt do Meno.