Por onde passava o Muro?

Em 9 de novembro de 1989 caía o Muro em Berlim. Um acontecimento do século. Uma viagem à época atual.

picture alliance/AKG images - Fall of the Wall

Por onde passava o Muro? Aqui era o lado ocidental? Onde começava o lado oriental? No Checkpoint Charlie em Berlim, todas as certezas são históricas. 27 anos depois da Queda do Muro, o oriente e o ocidente não servem mais de orientação. Agora, a divisão é entre chique e simples, moderno e velho, Kreuzberg e Mitte, pobre ou sexy. Somente os estudantes, com suas fardas de imitação do Exército Vermelho ou das Forças Armadas dos EUA relembram os turistas de que aqui passava antigamente a fronteira entre dois mundos. Em outubro de 1961, dois meses depois da construção do Muro, estiveram aqui, frente a 
frente, até mesmo tanques de guerra russos e americanos.

Quando desapareceram o Muro de Berlim, com 160 quilômetros de extensão, e a fronteira interalemã de 1400 quilômetros? 
Logo depois da sua Queda em 1989, quando partes de concreto foram demolidas ou carregadas pelos “pica-paus do Muro”? A fronteira se dissolveu após a reunificação em 1990, com a migração interna alemã de Leipzig para Stuttgart e de Erfurt para Frankfurt, em busca de trabalho, enquanto jovens de Stuttgart e de Frankfurt mudavam-se para Prenzlauer Berg? Ou ela ainda continua existindo, não como fronteira real, mas como um Muro nas cabeças? É hora de buscar os vestígios entre o Portão de Brandemburgo e a antiga fronteira do Elba.

A parte mais popular do Muro encontra-se entre os bairros berlinenses de Kreuzberg e Friedrichshain. Com 1,3 quilômetro de extensão, é hoje East Side Gallery. O pedaço do Muro, no qual Honecker e Brejnev se dão um beijo de irmandade socialista, é a mais conhecida obra de arte do Muro de Berlim. Após sua criação, em fevereiro de 1990, tornou-se um símbolo mais da união do que da divisão. Muito mais importante é, ao contrário, a lembrança da divisão. Daqueles 28 anos em que havia uma faixa da morte entre a República Democrática Alemã e a República Federal da Alemanha, bem como entre os setores ocidentais e o setor soviético de Berlim.

Além do Checkpoint Charlie, a divisão 
é relembrada também no Memorial do Muro, na rua Bernauer Strasse. De 13 de agosto de 1961 até 9 de novembro de 1989, a linha demarcatória cortava o centro da cidade densamente povoada de Berlim. Correram o mundo as imagens de berlinenses orientais pulando das suas janelas em busca da liberdade. Hoje, o Memorial da Bernauer Strasse é o único lugar onde se pode ver o Muro como era – com o muro interno, a faixa da morte e o Muro propriamente dito.

É mais discreta a marcação da fronteira dos antigos setores no centro da cidade de Berlim. À direita e à esquerda do 
Checkpoint Charlie, onde ainda hoje estão placas com os dizeres “Atenção, você está deixando o setor americano”, uma linha de paralelepípedos no chão ajuda 
a documentar o trajeto o Muro. Numa placa de bronze está gravado “Muro de Berlim 1961–1989”. Tão discreta é essa 
linha de paralelepípedos, quão inconcebíveis são as histórias por trás dela, principalmente para os jovens.

Quão flexível é a recordação. Quando a Alemanha Oriental começou a construir o Muro em 13 de agosto de 1961, haviam passado apenas 16 anos desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Desde a Queda do Muro já se passou agora um quarto de século. Como antes começavam os setores americano e soviético no Checkpoint Charlie, começa hoje o setor da recordação na rua Friedrichstrasse.

A recordação da divisão é mais emocional, quando vem de forma inesperada. Por exemplo, nos lugares que margeiam a ciclovia do Muro. Diferentemente do centro da cidade, a fronteira de Berlim Ocidental com a periferia não representava um corte pelos arredores de Berlim, mas sim uma fronteira entre cidade e 
zona rural. Nesse ponto, fugitivos sempre tentavam escapulir para Berlim Ocidental. Em Nieder Neuendorf, uma antiga torre de vigia mantém acesa a recordação. Peter Kreitlow, então com 20 anos de idade, foi morto a tiros pelas tropas soviéticas, em 24 de janeiro de 1963, quando tentava transpor a fronteira pelo rio 
Havel. Há 29 marcos funerários no Muro de Berlim, no total morreram 136 pessoas.

Morto por querer cruzar um rio a nado? 
27 anos depois da Queda do Muro, isto 
é hoje praticamente inconcebível. Da 
mesma maneira como no Elba, que delineava a fronteira “interalemã” por 94 quilômetros, uma cerca de metal tolhia aos alemães orientais a vista para o rio. Povoados, que durante séculos viveram do rio e à margem dele, foram então privados 
dele, alguns foram até mesmo trasladados. Uma dessas deportações foi chamada de “Ação Bicharedo”. Quem ficou, não podia mais ver o rio, mas apenas cheirá-lo e ouvir os passarinhos às suas margens.

Por onde passava propriamente o Muro? Não restou muito dele: um pedaço na rua Niederkirchnerstrasse, próximo à Câmara de Deputados de Berlim, outro ao lado do cemitério Invalidenfriedhof, no canal de navegação de Spandau, e finalmente, a parte de Muro que é a atual East Side 
Gallery, formando a fronteira entre os bairros berlinenses de Friedrichshain e Kreuzberg. Depois do dia 9 de novembro de 1989 e da reunificação da Alemanha em 3 de outubro de 1990, ninguém queria mais lembrar-se do Muro, o sinal de Caim deveria desaparecer.

Somente quem sabe como a gente se sente, quando uma cidade é separada de repente em duas metades, é que poderá entender porque as pessoas, nos dias que se seguiram ao 9 de novembro de 1989, sempre pronunciavam a mesma palavra, milhares de vezes: “Loucura!”. ▪