Mais responsabilidade, mais soberania
Guerra na Europa, política de poder em vez de regras, um presidente dos EUA imprevisível: A Alemanha está redefinindo sua posição em matéria de política de segurança.
A ordem mundial baseada em regras, que durante décadas foi um dado adquirido para a Alemanha e muitos outros países, está em crise. A guerra voltou à Europa, os acordos internacionais estão perdendo força e uma política estratégica agressiva de poder está tomando seu lugar. Acima de tudo, a ameaça proveniente da Rússia coloca em causa todo o sistema de segurança europeu. A Alemanha é um dos maiores apoiadores da Ucrânia. Até agora, porém, ainda não foi possível repelir o exército russo – as perdas são elevadas em ambos os lados e a situação tem consequências devastadoras para a população civil ucraniana. Os esforços diplomáticos para um cessar-fogo fracassaram até agora. Putin insiste em suas exigências máximas.
A situação agravou-se ainda mais desde a posse do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, no início de 2025. Sua política externa e de segurança é considerada errática, e ele demonstra abertamente seu desrespeito por instituições multilaterais como a OTAN, as Nações Unidas e a União Europeia. Em particular, as reivindicações territoriais descaradas de Trump sobre a Groenlândia, um parceiro da OTAN, alarmaram a Europa.
Pela primeira vez, a confiabilidade dos EUA como potência protetora está sendo questionada. No Fórum Econômico Mundial em Davos, o discurso de Trump causou inicialmente grande tensão, mas depois alívio. Pois, no que diz respeito à questão da Groenlândia, um possível conflito militar parece estar fora de questão por enquanto, também porque a UE se mostrou unida e anunciou contramedidas massivas às novas ameaças tarifárias de Trump.
A Alemanha prepara-se e busca novas respostas
Nesta difícil situação, a Alemanha tenta, juntamente com países como a França, o Reino Unido, a Polônia e a Itália, afirmar-se e reposicionar-se em matéria de política de segurança. No final de janeiro de 2026, Friedrich Merz exortou os parceiros da aliança europeia a agirem com união e autoconfiança na nova ordem mundial. A Europa apenas conseguirá impor as suas ideias “se também nós aprendermos a falar a linguagem da política de poder, se nos tornarmos nós próprios uma potência europeia”.
A segurança é a nossa prioridade máxima. Desde o início da guerra na Ucrânia, os alemães estão se rearmando em grande escala. A contribuição da OTAN deve aumentar para 3,5 por cento do produto interno bruto até 2029, incluindo a infraestrutura militar, chegando a cinco por cento. A questão da dissuasão nuclear é particularmente sensível. O presidente da França, Emmanuel Macron, vem defendendo há muito tempo uma abordagem europeia e o governo federal alemão se mostra aberto a discussões. O ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Johann Wadephul, destaca que a Europa continuará dependendo do escudo nuclear dos EUA por “muito tempo” e continua apostando na amizade entre a Alemanha e os Estados Unidos: “Nosso vínculo é sólido como uma rocha”. Ao mesmo tempo, porém, as questões de segurança estratégica devem ser “discutidas abertamente”.
Há anos que inúmeros especialistas em segurança alertam que a Europa não pode continuar adiando esse debate. Claudia Major, do German Marshall Fund, resume bem a situação: “A Europa dificilmente consegue agir sem os EUA e, mesmo assim, precisamos começar a assumir nossas responsabilidades, em vez de continuar terceirizando a segurança.” O renomado historiador Tymothy Snyder, da Universidade de Toronto, destacou em uma entrevista: “A Alemanha é a maior democracia plenamente funcional da Europa, e a Europa é o maior bloco de democracias funcionais. A existência da democracia no mundo depende da Europa, e a Europa depende da Alemanha.”
Mais soberania – militar, econômica, estratégica
A reestruturação da política de segurança da Alemanha inclui também a reintrodução do serviço militar, inicialmente em uma base voluntária. Ele deve reforçar o efetivo das Forças Armada Alemãs e, além disso, sensibilizar a sociedade para a importância da defesa do país e da aliança. Mas, em Berlim, a segurança já é vista de forma mais ampla há muito tempo. Também em termos econômicos, a Alemanha pretende tornar-se mais independente de seus parceiros europeus – por exemplo, por meio de novos acordos de livre comércio, como o Mercosul ou com a Índia. A imprevisível política tarifária de Trump funciona como um acelerador nesse processo. As infraestruturas críticas também estão a ganhar maior destaque. Os acordos firmados na Cúpula do Mar do Norte, em Hamburgo, para a expansão maciça da energia eólica em janeiro de 2026 são exemplares da intenção da Europa de se tornar mais resiliente no abastecimento de energia. Uma coisa é certa: Como maior economia europeia, a Alemanha desempenha um papel fundamental na busca da Europa por mais soberania.