Cômico sem barreiras

O astro comediante Bülent Ceyland não aprecia as generalizações, mas sim o humor como fator de aproximação.

Luigi Toscano - Bülent Ceylan

A falta de humor é uma característica atribuída com frequência aos alemães, na forma como são vistos no exterior. Ninguém mais sabe exatamente como foi originado isto. Com certeza, parte da culpa decorre da época em que nós, ou seja, toda a nossa Nação, fomos vistos como agressivos. Mas gosto de dar destaque à minha consideração básica de tais generalizações no meu programa cômico. Não aprecio isto de maneira alguma!

Um homem, usando calça de couro e com joelho de porco assado, chucrute e caneco de cerveja, também é tido em todo o mundo como característico de nós, mas na verdade – graças a Deus – não é tipicamente alemão. Na minha terra natal Mannheim, o pessoal ficaria muito preocupado com alguém assim! Esta classificação é antes de mais nada arbitrária e parece mais uma caricatura.

Sem dúvida: rir é saudável e é sempre legítima a maneira como nós provocamos esse riso, independente do que esteja por trás disto. A piada não precisa sempre ter um sentido profundo, a fim de agradar; não necessitamos sempre de um sentido por trás dela, quando fazemos piada de alguma coisa ou achamos algo engraçado. O melhor exemplo disto é o carnaval na Alemanha. A quinta estação do ano, “Fastnacht”, “Karneval” e isto, em especial na Renânia – esta época põe um riso no rosto das pessoas, durante muitos dias; elas espalham a alegria, esquecendo o dia a dia e suas preocupações. Para isto, o humor é, de qualquer maneira, uma das terapias mais seguras.

Ou seja, enquanto houver necessidade de coisas que nos façam rir, que nos façam especialmente alegres por um curto tempo, o humor desempenhará um papel importante na vida de cada um de nós. A vida é um constante dar e receber e assim, como existem pessoas dispostas a aceitar voluntariamente as coisas que as façam rir, tem de haver também aquelas que façam os outros rirem. Uns fazem isto de vez em quando no trabalho, na família ou entre os amigos, outros têm tanto talento nesta área, que sobem ao palco e ganham a vida com isto. Entrementes, um grande número faz isto na Alemanha. E, através da presença da comédia e da sátira político-social em todos os meios de comunicação, da longa tradição dos humoristas da velha escola e do teatro de bulevar nos 
palcos alemães, bem como das enormes possibilidades de divulgação, sobretudo de videoclipes de panes, através das mídias sociais, o “input” pessoal, humorístico, aumentou claramente nos últimos anos. As pessoas na Alemanha estão acostumadas a encontrarem algo para rir em todos os cantos – se o quiserem.

Nós vivenciamos tudo isto nas mais variadas nuanças e dentro dos níveis mais diferenciados. Por isto, sempre vamos encontrar algo para rir. Vamos sorrir discretamente, mesmo quando outros reagem com gargalhadas à 
mesma piada; vamos recontar, durante muitos dias, as piadas que nos agradaram especialmente, ainda que outros as considerem ridículas. O humor é sempre individual e ele é determinado pelo desenvolvimento pessoal próprio. Só raramente, todos vão achar boa a mesma piada. Eu também sempre constato isto nas minhas apresentações no palco.

E não importa onde e em que ambiente eu estou me apresentando no momento. Da mesma forma que um arco-íris consegue arrancar um pequeno “Ah” do pior dos mal-humorados, o humor pode superar todos os preconceitos e diferenças decorrentes das 
origens, aproximando as pessoas. Da mesma forma como a música, da mesma maneira como o sorriso de um bebê. Superando assim as barreiras! ▪

Bülent Ceylan é um dos mais bem-sucedidos cômicos alemães. Nascido em Mannheim em 1976, como filho de mãe alemã e pai turco. ele hoje lota grandes teatros com o seu programa cômico. De forma especial, ele gosta de se apresentar em diversos papéis, como o do sempre mal-humorado zelador “Mompfreed” (Manfred) e, com muito charme e espírito, desmascarar preconceitos e clichês alemães e turcos. Além disto: ninguém fala o sotaque de Mannheim mais bonito que ele.