“Earth Speakr“ faz as crianças falarem

O ministro de Relações Externas Maas encomendou ao artista dinamarquês-islandês Ólafur Elíasson uma obra de arte para a presidência alemã do Conselho da UE

Olafur Elliasson
Olafur Elliasson picture alliance/KEYSTONE

Ólafur Elíasson é um artista no qual sempre volta a emergir também a criança. Ele instalou gigantescas cascatas sob as pontes de Nova York e, com refrações, animou as pessoas a fazerem com que suas sombras coloridas dançassem sobre uma parede. Com luz estroboscópica, ele paralisou as gotas do jorro de uma mangueira, convertendo-as em esculturas luminosas. Com um enorme disco solar, ele transformou o galpão de turbinas da Galeria Tate Modern em Londres num interminável crepúsculo. O prazer infantil com jogo e admiração, com sutileza e fantasia, que vai além dos limites do racional, está inerente em todos os projetos do artista dinamarquês-islandês, que vive em Berlim, nos projetos que ele realizou nos últimos 25 anos.

“Symbiotic seeing” em Zurique.
“Symbiotic seeing” em Zurique. picture alliance/KEYSTONE

E por isso, existe uma grande lógica, que Elíasson tenha criado uma plataforma para crianças e jovens, um projeto artístico para a presidência alemã do Conselho da UE, desenvolvido a convite do Ministério de Relações Externas. “Há alguns anos me interessa quem são as pessoas que não são ouvidas. E são, por exemplo, as crianças”, afirma Elíasson sobre a sua “obra artística descentralizada” com o título de “Earth Speakr”. Por isso, Elíasson desenvolveu um aplicativo, que dá aos jovens uma voz na mídia – emprestando suas vozes a outras pessoas.

Como nos seus melhores trabalhos anteriores, o princípio de “Earth Speakr” é muito simples, mas o efeito é surpreendente. As crianças e jovens entre 7 e 17 anos de idade podem gravar com o aplicativo nos seus smartphones uma mensagem, que é transformada numa mímica gráfica no display. A declaração gravada pode ser transmitida diretamente a um objeto nas proximidades. O rosto digital incorpora-se na imagem de fundo e faz com que o objeto fale as palavras gravadas anteriormente. Assim, por exemplo, uma árvore pode queixar-se da poluição atmosférica, uma costeleta grita na frigideira ou um carro ruge. Da mesma forma, um cão ­pode recitar um poema de amor, um morango pode arrotar ou uma bola pode xingar o FC Bayern de Munique.

O tema de Earth Speakr são as grandes questões ambientais

Ólafur Elíasson, artista

“O tema de Earth Speakr são as grandes questões ambientais”, explica Elíasson as intenções básicas do projeto. “Não queremos de forma alguma prescrever moralmente às crianças o que elas têm que dizer”. Por isso, o conteúdo desse aplicativo de realidade aumentada é definido apenas de forma aproximada, a liberdade é ilimitada. Elíasson confia que os jovens usuários compreenderão a intenção do projeto e não transformarão “Earth Speakr” em instrumento para piadas e dicas de maquiagem na internet. “As crianças e os jovens sabem muito bem, o que está acontecendo com o mundo”.

Após uma fase de testes de oito meses em muitos países europeus, que a equipe de Elíasson executou juntamente com peritos de psicologia infantil e de outros setores, o artista está seguro de que os pequenos filmes, colecionados na plataforma, poderão enviar uma mensagem impressionante às “elites decisórias nas questões climáticas”. “Já que os resultados do aplicativo são frequentemente surrealistas e bizarros, pode-se ocupar disso durante muito mais tempo, do que seria com um simples chavão político” E já que existe o aplicativo em 25 idiomas, será no final um verdadeiro coro europeu das coisas falantes, que poderá expressar suas opiniões sobre a necessidade urgente de ação em decisões de orientação política.

“Seria de grande importância, se os portadores e portadoras de poder de decisão ouvissem o conselho das crianças”, diz Elíasson. Até porque as crianças são “especialistas em esperança”. Assim, o artista tampouco espera que “Earth Speakr” se transforme numa “plataforma do medo”. Apesar de se tornarem maiores a cada dia as ameaças para o futuro das crianças, causadas pela crença dos adultos num crescimento econômico eterno, Elíasson espera um impulso produtivo das meninas e meninos. “Para a enorme força de imaginação e o espírito lúdico que as crianças possuem, eu criei uma plataforma na qual elas podem expressar todas as suas preocupações e ideias”.

“Your spiral view“ em Londres.
“Your spiral view“ em Londres. picture alliance / Photoshot

Por isso, Elíasson se vê apenas como “meio artista” na participação do projeto para a presidência do Conselho da UE. A outra metade da obra de arte é criada pelas crianças e jovens. E esse conteúdo não é no final de propriedade do inventor do aplicativo. “Os conteúdos que são produzidos pelas crianças continuam pertencendo às crianças”, diz Elíasson. Ele também chama a atenção de que as mais altas determinações de proteção de dados valem para “Earth Speakr”, criado em cooperação com o Ministério de Relações Externas e com o Instituto Goethe.

“Necessitamos de um movimento geral, visando a que as crianças sejam ouvidas – não apenas na política, mas também por todos os portadores e portadoras de poder de decisão na sociedade e na economia”, afirma Elíasson. Apesar disso, ele não quer fazer prognósticos sobre o que os jovens usuários farão realmente com a apli­cativo. “Isso tem um alto grau de imprevisibilidade. Mas isso é característico para a arte”. Ele próprio alegra-se como uma criança a respeito dos resultados.

Escada em Munique.
Escada em Munique. picture alliance / Martha Feustel

Quem é Ólafur Elíasson?

Nascido na Dinamarca em 1967 e ­criado na Islândia, Ólafur Elíasson já entrou em contato com representantes dos círculos artísticos alemães ­durante o seu estudo de arte em ­Copenhague. Em 1995, ele se mudou ­para Berlim e fundou o Estúdio Ólafur Elíasson. Uma equipe de especialistas em arquitetura, trabalhos artesanais e técnica digital lhe dão assessoria na ­realização dos seus projetos. Como professor da Universidade das Artes (UdK), Elíasson dirigiu, de 2009 até 2014, o Instituto de Experimentos de Espaço. Ele é também fundador da empresa “Little Sun”, que produz ­lanternas a energia solar para regiões sem suprimento de eletricidade.

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