Uma visão da União Europeia a partir da Grã-Bretanha

A Grã-Bretanha sempre quis estar na União Europeia, mas também fora dela – mas ela faz parte da Europa, disto Rachel Sylvester, The Times, está convencida.

Londres: a Ponte da Torre e o Distrito Financeiro.
Londres: a Ponte da Torre e o Distrito Financeiro. s4svisuals - stock.adobe.com

Nós indagamos jornalistas de países europeus sobre o futuro da União Europeia – leia aqui a resposta de Rachel Sylvester. Ela escreve para o diário britânico The Times.

Nas suas relações com o resto da União Europeia, a Grã-Bretanha sempre foi um vizinho constrangedor. Como nos carrinhos de batida dos parques de diversão, nos quais os passageiros são empurrados contra as paredes na confusão, parece haver uma força centrífuga que nos afasta de Bruxelas, enquanto o restante da UE visa uma união cada vez mais estreita. Queríamos ficar dentro como também fora da UE, ser parte do mercado interno, mas rechaçar o euro, receber o nosso quinhão do bolo e também comê-lo. O Canal da Mancha foi uma barreira política e física, que gerou uma sensação de isolamento e um orgulho parvo disso. Foi esse impulso de isolamento que levou ao voto em prol do Brexit em 2006, mas o afastamento sempre foi uma ilusão.

Estamos inseguros quanto ao nosso lugar no mundo

O primeiro-ministro Boris Johnson retrata seu país na nova era pós-Brexit como uma superpotência global, que irá sair pelo mundo como grande defensora do comércio livre. Mas para isso, nós voltamos as costas para os nossos maiores parceiros comerciais, somos espectadores de uma disputa entre os EUA e a China – esperamos acordos mundiais. A verdade é que estamos enfraquecidos e inseguros sobre o nosso lugar no mundo. Ainda hoje continua válida a frase do então secretário de Estado dos EUA, Dean Acheson, em 1962, de que a Grã-Bretanha perdeu um império, mas ainda não encontrou nenhum novo papel.

O voto em favor do Brexit foi movido por emoções. A campanha pela saída da UE usou os temores irracionais em relação à imigração e o anseio antipolítico de “recuperar o controle”. Mas agora, quando estamos fora da UE, vemos a realidade de frente, os compromissos necessários e os enormes custos econômicos, que são gerados por uma renúncia aos acordos comerciais.

Rachel Sylvester
Rachel Sylvester

O primeiro-ministro está decidido a deixar a UE para trás e a fechar um acordo de livre comércio com Bruxelas, mesmo que empresas, agricultores e consumidores tenham de pagar um preço por isso. E se isso não der certo, ele está disposto a deixar a UE sem um acordo, com todas as consequências que isso pode gerar.

Até mesmo na avaliação do governo, essas consequências significam uma queda do Produto Interno Bruto em 16 % para partes do país. É significativo constatar que as regiões da classe trabalhadora no Norte e nas Midlands serão as mais duramente atingidas – exatamente aquelas que asseguraram aos conservadores a vitória nas eleições parlamentares. Se o caminho de Johnson levar ao fechamento de fábricas e ao desemprego, ele será rigorosamente punido nas próximas eleições.

A Geografia não pode ser ignorada, da mesma forma como a História.

Rachel Sylvester, The Times

Serão por isso exercidas pressões tanto políticas como também econômicas para que se chegue a um acordo de compromissos com a União Europeia. A UE continua sendo, geograficamente, o mercado mais próximo para a Grã-Bretanha. A Geografia não pode ser ignorada, da mesma forma como a História. Da mesma forma como uma força centrífuga emocional nos jogou fora da UE, uma força centrípeta econômica vai nos trazer de volta para a Europa, de maneira vagarosa mas inexorável.

Rachel Sylvester é colunista política do The Times. Ela começou a escrever sobre política em 1996 e trabalho no Daily Telegraph e no The Independent on Sunday. Em 2008, ela se transferiu para o The Times e, em 2015 e 2016, foi eleita a jornalista política do ano na Grã-Bretanha.

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