“O coronavírus pode agravar os conflitos”

Na época da pandemia, os conflitos armados continuam acontecendo com a mesma intensidade, diz Nicole Deitelhoff, pesquisadora de paz e conflitos.

Combatentes com máscaras de proteção na Líbia.
Combatentes com máscaras de proteção na Líbia. dpa/pa

As crises e os conflitos no mundo todo são os temas de pesquisa da Profa. Dra. Nicole Deitelhoff. Até agora, as pandemias quase não desempenharam nenhum papel nesse assunto. Isso está mudando, diz esta perita em política. Ela é diretora do Leibniz-Institut Hessische Stiftung für Friedens- und Konfliktforschung (HSFK). Em entrevista com deutschland.de, ela fala de crises em tempos de coronavírus.

Senhora Dra. Deitelhoff, podemos ver pessoas armadas usando máscaras de proteção. São fotos de regiões em crise em tempos da pandemia de coronavírus. O que elas provocam na senhora, uma pesquisadora de paz e conflitos?

Sobretudo frustração. Fico frustrada de ver que as lutas continuam sendo travadas em muitas regiões de conflito com a mesma intensidade ou com mais intensidade ainda. Observamos que as partes em conflito usam a pandemia para ganhar terreno ou seguir suas metas políticas. O secretário-geral da ONU António Guterres apelou para que se fizesse uma trégua de paz para que se pudesse proteger a povoação civil. Infelizmente, apenas uma pequena parte dos conflitos fez realmente um trégua temporária, como no Afeganistão em fins de maio. Mas na maioria dos conflitos, as lutas continuaram com a mesma intensidade, como na Síria ou no Iêmen.

Qual foi, até agora, a importância do tema da saúde na pesquisa de paz e conflitos?

Não foi, com certeza, nenhum tema central de pesquisa. A saúde desempenhou antes um papel secundário, por causa das relações gerais entre o desenvolvimento e a paz. Existem aspectos, como a mortalidade de bebês ou as taxas de vacinação, que estão entre os mais importantes indicadores de desenvolvimento. É claro que já havia indicadores, antes da epidemia de coronavírus, que tinham uma certa importância secundária na pesquisa. Mas eles nunca alcançaram um nível de observação como sendo a causa de conflitos. Isso mudou devido ao coronavírus, pois a pesquisa de paz e conflitos também ficou mais sensibilizada com esse tema.

É difícil intermediar em conflitos por meio de chats de vídeo.

Nicole Deitelhoff, diretora do Leibniz-Institut Hessische Stiftung Friedens- und Konfliktforschung

Como a pandemia atua sobre os conflitos?

Significante para a pandemia de coronavírus é o bloqueio total (lockdown). A proibição de contatos e as limitações produzem efeitos em situações de conflito e isto de três maneiras: em primeiro lugar, houve novamente um surto de violência em sociedades frágeis em situação pós-conflito, dado que as forças de segurança tiveram que se retirar da região, como na América Latina. Em segundo lugar, as missões da ONU começaram a sofrer pressão, porque os peacekeepers da ONU não podiam sair das suas bases. Em terceiro lugar, foi quase impossível fazer mediação ou diplomacia de crise. É difícil intermediar em conflitos por meio de chats de vídeo, pois, estando em situações desagradáveis, as partes em conflito podem apertar o botão desliga.
 

Então, frente à pandemia, a diplomacia se encontra em uma situação difícil?

Prescindir do diálogo direto é muito difícil para a diplomacia, pois ela, além da palavra falada,  também necessita dos gestos, da mímica e de outros fatores, para reconhecer onde pode haver a possibilidade de alcançar compromissos.  Pode-se fazer um bom intercâmbio de informações virtualmente, mas conseguir confiança é muito mais difícil.

Creio que o coronavírus também é uma grande chance para a diplomacia alemã.

Nicole Deitelhoff, diretora do Leibniz-Institut Hessische Stiftung Friedens- und Konfliktforschung

O que significa isso para a liberdade de ação da política externa alemã e europeia?

Penso que o coronavírus é uma grande chance para a diplomacia alemã, pois ela já vem praticando há muito tempo a prevenção civil de crises. O coronavírus é um dos casos que serve para essa prática, pois a pandemia não pode ser combatida com armas. Não precisamos da melhor estratégia militar, mas da melhor estratégia de reconstrução. E nisso, a diplomacia alemã e a política externa da Alemanha têm muita experiência e perícia. Nesta era de pandemia, a Alemanha está agindo com muita decisão dentro do contexto da UE e do grupo Team-Europe-Initiative. Quanto mais questões de prevenção civil e de gestões pós-crise estiverem em primeiro plano, tanto mais resoluta será a presença da Alemanha e da Europa no palco da política internacional.   

A senhora diz que o coronavírus agravou os conflitos. Foi muito ingênuo acreditar que a pandemia poderia gerar solidariedade e que as partes em conflito poderiam desistir do confronto?

O problema fundamental é a situação de conflitos, que, na maioria das vezes, é muito heterogênea. Não são somente uma ou duas partes nacionais que estão envolvidas no conflito. Em muitos desses atuais conflitos muito virulentos, temos, por um lado, os atores violentos não estatais e, por outro lado, um Estado às vezes muito repressivo. Ou temos as intervenções externas de diversos Estados. Um exemplo é a Líbia, onde um governo internacionalmente reconhecido luta contra rivais concorrentes não estatais. Um destes rivais­ – as milícias sob o comando do general Haftar – vem sendo apoiado pela Rússia que lhe fornece armas e mercenários. Em tais situações, existe pouca possibilidade de que os apelos morais possam ser ouvidos.

 

Nicole Deitelhoff, politóloga e diretora do HSFK
Nicole Deitelhoff, politóloga e diretora do HSFK Uwe Dettmar

Então, não existe nenhum motivo para ser otimista?

Infelizmente não, se observarmos os conflitos internacionais. Ao contrário, onde realmente acontece algo é na UE. Pudemos observar, nos últimos três meses, uma atividade excepcional, como a da implícita concessão relativa à dívida comum, mesmo que tenha sido dentro das estreitas limitações de acordos jurídicos. Lá surgiu um incrível dinamismo, com o qual não se poderia de maneira nenhuma ter contado há meio ano atrás.  Sendo assim, podemos dizer que existem efeitos positivos indiretos, pois os possíveis mediadores, que têm interesse em uma ordem juridicamente regulada, ganharão mais força na crise.

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