“O trabalho pela paz é uma lesma”

Observadora da OSCE na Ucrânia: Herta Eckert conta como a paz retornou a Lugansk.

Herta Eckert na ponte de Stanytsia Luhanska.
Herta Eckert na ponte de Stanytsia Luhanska. OSCE

“Minha missão como «oficial de monitoramento» da OSCE na Ucrânia começou em março de 2015, com uma viagem de Kiev para o Leste do país, onde ocorriam combates. Quando nós cruzamos a linha de frente com os nossos veículos blindados e chegamos a Lugansk pouco depois, minha primeira impressão foi: tão mal as coisas parecem não estar aqui, a vida nas ruas transcorre normalmente.

Mas eu logo notei que isso não era correto. Em comparação com a época anterior ao conflito, as ruas estavam muito vazias e também as prateleiras nas lojas; via-se muito poucas famílias com crianças. Na época, ouvia-se ainda com frequência as escaramuças entre as tropas governamentais e as unidades não governamentais. A linha de frente transcorre hoje poucos quilômetros fora de Lugansk, a cidade em si está nas mãos das forças não governamentais.

Das minhas tarefas principais fazia parte documentar as violações do acordo de cessar-fogo e, caso a infraestrutura tivesse sofrido danos, cuidar para que, por exemplo, o abastecimento de água e de eletricidade voltassem a funcionar. Para isso, visitamos frequentemente a linha de frente, mas também os territórios dos dois lados. Sempre estamos desarmados nessas visitas. A situação geral é hoje muito melhor que em 2015, mas ainda existem vítimas civis, frequentemente através da explosão de minas.

O trabalho pela paz é uma lesma. Mas uma lesma também se movimenta”

Observadora da OSCE Herta Eckert

O trabalho pela paz é uma lesma e é com frequência frustrante a morosidade com que as coisas mudam. Mas uma lesma também se movimenta. Em Lugansk, há uma ponte, por exemplo, que foi destruída em 2015. Era a única ligação entre o lado governamental e o não governamental. Desde então, as pessoas só podem atravessar a pé por uma rampa provisória de madeira. Isso é muito penoso para as pessoas mais velhas ou com limitações físicas.

E muitas pessoas têm família e amigos dos dois lados da linha de frente. Recentemente, após negociações que duraram anos, o território em torno da ponte foi desarmado nos dois lados e agora começa muito lentamente a reconstrução da ponte. É muito comovente, testemunhar isso.

Eu atuo já há mais de 20 anos para diversas organizações no trabalho de pacificação. Comecei na década de 1990 na Bósnia e Herzegovina. O que eu aprendi nesse tempo todo foi: as pessoas em todas as partes do mundo querem ter segurança e um futuro para os seus filhos. O contato com as pessoas é a melhor coisa do meu trabalho, quando elas dizem: que bom, que vocês estão aqui.

Para mim, paz significa sentimento de humanidade – e isso nós trazemos conosco. Aqui, na linha de frente, pouco depois da minha chegada, ficamos conhecendo uma menina de seis anos de idade, que vivia com seus avós e sempre vinha nos visitar, quando a situação do patrulhamento permitia. Hoje, Sonja está num internato em Lugansk. Eu disse aos meus colegas: quem sabe essa menina se torne um dia talvez a presidente do seu país e vai lembrar-se então da OSCE”.

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